Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Dois textos do professor António Brotas, a quem agradecemos

Para a Redacção do Diário do Sul


"5 de Janeiro de 2010

Caro Manuel Madeira Piçarra,

Leio na primeira página do Diário do Sul que ontem, que hoje me chegou, o título:
"Que o novo ano traga ... prosperidade para o Alentejo ".
Neste tipo de questões sou muito pragmático e penso que a prosperidade que viremos a ter depende muito do que fizermos por ela.
No caso concreto do Alentejo, depende muito de serem acertadas as medidas que vierem a ser tomadas relativamente ao traçado das novas vias de transporte, especialmente , ferroviárias.
Ora, não vejo na imprensa, e muito em particular na regional, convenientemente discutido este problema.
Posso-lhe dizer, por exemplo, que consegui escrever mais artigos sobre os caminhos de ferro no Alentejo na "Gazeta da Beira", de São Pedro do Sul, do que nos jornais do Alentejo onde, que o tenha visto, nos últimos anos não publiquei nenhum. E, na página 3 do número de ontem do Diário do Sul, leio a 854º crónica do meu camarada do PS Carlos Zorrinho, hoje Secretário de Estado, em que aborda, entre outros assuntos, o fim previsto em 2012 da civilização Maia, mas não me recordo de ter lido em nenhuma das suas anteriores crónicas um texto sobre os Caminhos de Ferro no Alentejo.
Nós somos um país sem censura oficial (felizmente !), mas com lacunas gigantescas na nossa Comunicação Social.
Estou convencido que, em grande parte, as nossas dificuldades em vários domínios: Transportes, Educação, Saude, Justiça, etc . etc. são devidas a este tipo de lacunas.
Como não vemos as lacunas e os detalhes, temos tendência a discutir os grandes problemas abstractos: a favor ou contra o TGV (esquecendo o problema da bitola e do traçado das linhas), mais ou menos grandes insvestimentos (esquecendo a sua qualidade), mais verbas para a Educação (sem procurar ver o interessa ensinar ) etc. etc. etc.
Permito-me enviar-lhe a seguir um texto que vou divulgar em conjunto com esta carta.
A Redação do Diário do SUL decidirá se aceita publica lo.
Obviamente, gostaria muito de ver no vosso jornal neste ano que agora começa um amplo e aberto debate sobre os Caminhos de Ferro do Alentejo.
Penso que seria util para o Alentejo e para o país.

Com as minhas melhores saudações

António Brotas"

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Subject: Sobre as vias ferroviárias no Alentejo

"4 de Janeiro

Exmo Senhor Secretário de Estado dos Transportes,

Envio-lhe a seguir um texto que foi lido no encontro do dia 13 de José Socrates na FIL com os militantes do PS da FAUL, em que há a indicação de que este mesmo texto lhe seria transmitido dentro de 2 ou 3 dias.
Atrasei-me porque era minha intenção transmitir-lhe um dossier mais completo, com um apanhado de informações enviadas à Secretaria de Estado dos Transportes nestes últimos anos, e tal não foi possivel.
O assunto continua actual e, para não me atrasar mais, envio-lhe desde já este texto.
Quero no entranto dizer-lhe que, no passado dia 11 de Dezembro, relizou-se na Sociedade de Geografia de Lisboa um importante encontro em que foram analisadas as três possiveis travessias ferroviárias do Tejo, TTT.
A de uma ponte para o Barreiro, a de um túnel na direcção do Montijo, e a da travessia na zona de Alverca.
Esta última hipótese, se for possivel, e é quase certo que o seja, será uma obra muito mais barata, mais facil de calendarizar, e mais condizente com uma futura rede ferroviária de bitola europeia adequada aos interesses do país.
Em qualquer caso, a futura TTT terá de ser decidida em conjunto com o trajecto dos futuros comboios de bitola europeia de Lisboa para o Norte.
Trata-se, assim, de uma obra com uma importância gigantesca para o país.
Os estudos para a decidir estão cheios de lacunas, e algumas conclusões apressadas, que preconizam decisões imediatas, têm sido fortíssimamente contestadas.
Felizmente, temos tempo para estudar sériamente este assunto (que não exije mais de 2 anos, sendo no entanto necessários que deles não sejam excluidos os que têm opiniões críticas e diferentes).
Podemos, entretanto, avançar com obras consensuais, com benefícios imediatos e com encargos financeiros acessíveis, como é o caso de algumas obras indicadas no texto que se segue.
A Comunicação Social começa, felizmente, a falar hoje menos no TGV e mais no problema da bitola, sinal de que o país começa lentamente a aperceber-se do problema.
Os jornais, incluindo os regionais, no entanto, quase não discutem do problema do traçado das novas linhas ferroviárias, em particular no Alentejo, razão pela qual vou divulgar este texto.

Com os meus melhores cumprimentos

António Brotas"







Texto lido no passado dia 13 Dez 2009, na FIL, no encontro de José Socrates com os militantes do PS da FAUL







Caro Sócrates,







Desejo-lhe dizer 2 ou 3 coisas que escrevi. Entro imediatamente no assunto e leio:







1-Estou convencido que o Governo tem condições para governar e que vai governar 4 anos. As Oposições farão o seu trabalho, umas vezes bem, outras pior, é lá com elas.



O PS só deverá ter uma linha de rumo, um objectivo: governar bem.



Para isso, o conselho que lhe dou é o de que oiça mais o PS.



Não unicamente em encontros como este mas, sobretudo, fomentando, estimulando a actividade, e ouvindo gabinetes de estudo (do PS) que hoje praticamente não existem.







2- Desejo felicita-lo pela decisão anunciada, ontem, do arranque em 2010 das obras da linha de bitola europeia de Caia ao Poceirão, a integrar na futura linha de Lisboa a Madrid.



Esta linha de Lisboa a Madrid vai ser a nossa primeira, mas não única, ligação à rede europeia de bitola europeia. Sem estas ligações o país ficaria uma ilha ferroviária o que seria terrivel para a nossa Economia. O governo socialista deve ser felicitado por dar este primeiro passo para a sua concretização.



Este primeiro troço de Caia ao Poceirão é já muito importante mas, para ser verdadeiramente benéfico a curto prazo, necessita de um pequeno acrescento.



Não tem sentido terminar uma linha de alta velocidade numa plataforma logística, aliás, ainda não construida. Esta linha vinda de Badajoz deve seguir até ao Pinhal Novo onde há uma estação que serve os comboios da FERTAGUS e para o Algarve.



São necessários mais 15 km para a nova linha chegar a esta estação. É a maneira de começar a ser benéfica a muito curto prazo.Para o Poceirão deverá ser feito um (ou mais do que um) desvios laterais para os comboios de mercadorias de baixa velocidade.



Estou certo que se chegará a esta solução quando o assunto for estudado em detalhe.



Enviarei ao Senhor Secretário de Estado dos Transportes dentro de 2 ou 3 dias uma nota sobre este assunto.







3- Um outro assunto paralelo, mas distinto, é o das ligações ferroviárias do porto de Sines.



O Senhor Ministro do Fomento de Espanha veio-nos há dias dizer que a Espanha tem um grande interesse na ligação ao porto de Sines por uma linha de bitola europeia.



Este interesse de Espanha coincide inteiramente com o nosso.



O que precisamos de fazer, quase imediatamente, é uma linha de bitola europeia de Sines ao Poceirão, que assegurará a conveniente ligação a Espanha.



Interessa-nos, além disso, melhorar a ligação por bitola ibérica de Sines ao Poceirão, porque no Poceirão converge a nossa actual rede de bitola ibérica que continuará em funcionamento por mais duas décadas.



O trajecto natural que se impõe para a nova linha é o trajecto directo Norte Sul (já parcialmente estudado). Os elementos expostos parecem indicar que esta linha deva ser uma linha de baixa velocidade, com duas vias, uma de bitola europeia e outra de bitola ibérica, que sirva o litoral alentejano inclusivé para o trânsito de passageiros.



Esta obra está inteiramente ao alcance das nossas empresas, os benefícios serão imediatos e os custos relativamente diminutos.



Em vez disso, a RAVE e a REFER, que não acreditam na migração rápida da rede espanhola da bitola ibérica para a bitola europeia, insistem em fazer uma linha de bitola ibérica de Sines a Évora.



Esta linha é um verdadeiro absurdo que não serve a Espanha e prejudica Portugal, porque deixa Sines com uma péssima ligação à nossa actual rede de bitola ibérica, e porque seria quase um apelo para a Espanha retardar a modernização da sua rêde.



Bem ao contrário, na próxima cimeira de 2010 Portugal deve fazer um apelo a Espanha para não o fazer.

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