Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

"E eu acho que o Senhor Mota é que devia ser ministro das Obras Públicas, ou mesmo mais "

Com a devida vénia, reproduzimos aqui este texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009...tem tudo a ver...

"Onde o nosso Comendador, defendendo o Senhor Mota, lhe prognostica uma enorme carreira política e um futuro auspicioso, ainda que o próprio talvez nunca tenha pensado nisso a sério.


Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)


Eu venho em defesa do Senhor Mota! E quem é o Senhor Mota? - assim me perguntais vós, caros amigos leitores. Pois o Senhor Mota é um senhor do Porto que tem uma série de contentores no porto e faz uma caterva de auto-estradas no Porto, em Lisboa, na Polónia e em mais onde o chamarem e lhe pagarem a respectiva obra.

O Senhor Mota, vi-o eu na televisão, é o único senhor que consegue explicar cabalmente por que razão em Portugal fazem falta mais auto-estradas, três TGV, dezenas de estradas que não são auto, milhares de caminhos, centenas de contentores, alguns portos e um aeroporto e - de um modo geral - tudo o que meta alcatrão, cimento, ferro e restantes materiais. O Senhor Mota sabe, aliás, que aquilo a que chamamos alcatrão já nem alcatrão é, mas sim uma mistura de pneus velhos e material reciclado, razão pela qual a Pátria deveria agradecer ao Senhor Mota a utilização daqueles resíduos em obra útil, ao invés de irem ter com o senhor Manuel Godinho, o das sucatas, e ter destino inútil.

O Senhor Mota, que tem nome adequado a auto-estrada (melhor só se fosse Senhor Carro, ou Senhor Camioneta), explica-se lindamente. Um destes dias estava eu a vê-lo na televisão e descobri que concordava com ele.

Coisas que o Engº Lino nunca conseguiu explicar e que o Prof. Mendonça não consegue sequer balbuciar, disse-as o Senhor Mota com uma desenvoltura que nos leva a, instintivamente, não lhe colocar qualquer objecção. Uma auto-estrada entre Sines e Beja? Oh, oh - diz o Senhor Mota - se você não a fizer o país afunda-se. Um TGV entre o Porto e Lisboa? Oh, oh - diz o Senhor Mota - mas se não houver TGV para o Porto, os comboios de passageiros não andam a mais de 40 km/h por causa dos de mercadorias. O Senhor Mota explica, aliás, que o mal foi andarmos a gastar a dinheiro sem ser no TGV; que o mal foi não termos construído auto-estradas mais cedo. Olhe a Irlanda, aponta o Senhor Mota com ar sereno. Oh, oh, não fizeram auto-estradas e agora estão falidos e não têm sequer uma de jeito. E, não sei porquê, não vos consigo explicar, a gente compreende logo ali, fulminantemente, que à Irlanda falhou um Senhor Mota...

O Senhor Mota também explica os contentores em Lisboa. Explica-os de forma simples e compreensível: Lisboa tem, digamos, uns 20 km de frente ribeirinha e andamos a protestar por uns meros 4 ou 5%! O que é isso? E mais: Barcelona, Hamburgo, Antuérpia, tudo cidades belíssimas, oh, oh, têm contentores no centro da cidade, não sei se exactamente na praça principal, mas lá perto. E o Senhor Mota diz que, se os políticos não quiserem, ele tira os contentores do porto, mas quem perde somos nós, porque nós, portugueses, que demos mundos ao mundo, demos também contentores aos portos e devemos muito à carga que está nos contentores.

Com o Senhor Mota não há discussões! Se o Senhor Mota fosse ministro, quatro coisas boas aconteciam: 1) Tínhamos quem nos explicasse bem os projectos; 2) Não tínhamos derrapagens, porque o Senhor Mota nunca pagou um tostão a mais a quem quer que fosse; 3) Sabíamos que o Senhor Mota não ganhava os concursos todos, porque o Senhor Mota é que punha as coisas a concurso; 4) O Tribunal de Contas não parava nada, porque o Senhor Mota optaria sempre pela solução mais barata e mais segura! E outra ainda: o Senhor Mota podia levar para secretário de Estado um colaborador próximo, quadro da sua empresa, que seria, também ele, excelente: o Dr. Jorge Coelho. Digam lá se isto não era um luxo?

Eu voto Senhor Mota (também votaria Senhor Engil, mas esse não sei quem é)!"

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